Atualização sobre as medidas de isolamento social e o reflexo na situação da COVID-19 no Brasil

Ribeirão Preto, 27 de maio de 2020
Equipe de Mercado FG/A

Panorama Geral e Introdução

Em nosso último artigo, publicamos a respeito da rápida velocidade de propagação do COVID-19 e as principais medidas sociais necessárias para sua contenção. Elaboramos um entendimento dos casos de maior destaque dos países acometidos pela pandemia antes do Brasil, retratando as principais ações governamentais e seus resultados no crescimento de novos casos diários do Coronavírus. Dentro desse escopo, aprofundamos o entendimento de países como China, Itália e Coréia do Sul. Nosso intuito foi projetar cenários da evolução da doença no Brasil, baseados principalmente: (i) na transposição dos exemplos e das experiências dos países europeus e asiáticos para as políticas brasileiras e (ii) na identificação das medidas de controle dos outros países e seus reflexos na inversão da curva de aumento de novos casos, analisando os possíveis resultados se as mesmas fossem tomadas no Brasil.

Nesse artigo iremos explorar (i) quais foram os resultados das providências tomadas na Europa e seu contexto atual, (ii) avaliar se o isolamento social brasileiro foi eficaz, (iii) fazer comparações com os países com similaridades socioeconômicas em relação ao Brasil (Índia, África do Sul e México) e (iv) destacar os principais desafios que podemos enfrentar no Brasil nos próximos meses. Para isso, retomaremos o conceito de indicador diário de contaminação explorado no artigo anterior, como sendo a divisão entre os casos de um determinado dia e a somatória de casos dos 10 dias anteriores. Conforme nossos estudos de caso, é preciso que esse número fique abaixo de 10% para que haja uma redução efetiva na contaminação (isso significa o R<1, ou seja, cada novo caso causa menos do que uma contaminação).

Explorando a questão da Mobilidade

No primeiro estudo que fizemos, baseamos nossas projeções do número de casos diários de Coronavírus em função das ações governamentais, sendo a principal delas relativa às medidas de isolamento social. Para este trabalho, trouxemos uma informação adicional que entendemos ser mais representativa: a mobilidade das pessoas. A partir da informação disponibilizada pelo Google, oriunda de seus aplicativos, principalmente o Google Maps (Google Mobility Report), foi possível observar mais precisamente como as pessoas mudaram o seu padrão de movimentação ao longo dos dias.

A FG/A trabalhou este número estabelecendo a premissa de que a movimentação das pessoas nos 10 dias anteriores teria reflexo no número de casos de um determinado dia. Como esperado, foi possível observar uma correlação entre (i) a média da mobilidade diária e (ii) média do índice de contaminação, mais especificamente entre (i) a média móvel de 10 dias do indicador de mobilidade e (ii) a média móvel de 5 dias do indicador diário de contaminação.

Tomando como base estes dois dados importantes, pudemos estabelecer as considerações a seguir.

Vale ressaltar e destacar que o índice de mobilidade não deve ser comparado entre os países: o fato de um país ter que reduzir a mobilidade em 80% para alcançar o objetivo de uma taxa de contaminação inferior a 10%, enquanto outro chega nesse patamar reduzindo a mobilidade apenas em 40%, não tem significância para o proposto aqui.

Isso porque o grau de disseminação do vírus em um país é fator relevante para que seja possível reduzir a infecção com maior ou menor redução na mobilidade: com uma redução mais significativa nas regiões contaminadas é possível implementar o controle com teste e rastreamento nas demais.

Um ponto importante que poderemos observar ao longo do nosso estudo é que todos os países analisados necessitam fazer a redução da mobilidade para trazer a taxa de contaminação abaixo de 10% (R<1) e só então voltam a aumentar a mobilidade.

Acompanhamento da Itália

Em nosso primeiro estudo inferimos inicialmente que, com base nas medidas governamentais adotadas no país, a Itália apresentaria uma redução no número de casos diários ainda que houvesse um ponto de dúvida relacionado ao tempo para sua concretização. Isso porque, a China, país até então comparável para projetar o que visualizaríamos na Itália, apresenta regime governamental e padrão cultural significativamente diferente. E por fim, o que pudemos observar na Itália foi uma redução no número de casos diários, porém de forma gradual e mais lenta quando comparada à China.

A seguir, apresentamos dois gráficos para a Itália.

Gráfico Itália

Na primeira quinzena de março, havia uma redução de aproximadamente 50% na mobilidade urbana e a taxa de contaminação diária se mantinha acima de 20%. Por consequência, cabe notar no gráfico inferior que o país se encontrava em um período de ascensão diária de novos casos confirmados. No dia 1 de abril, o índice de mobilidade havia se reduzido ainda mais (para aproximadamente 80%) e então a contaminação caiu para abaixo de 10%. Após isso, o número de casos diários reportados passou a diminuir progressivamente, ratificando a hipótese inicial de que o isolamento social é uma ação necessária para atingir um cenário de maior controle.

Ao contrapor os dados, incluindo os dados de mobilidade disponíveis no Google Mobility Report, foi possível observar que o início progressivo de isolamento se deu a partir do dia 12 de março, após as medidas de fechamento do comércio essencial. De forma bastante apurada, é possível perceber que a partir do dia 1 de abril o índice diário de contaminação cai abaixo dos 10% e permanece abaixo deste patamar. No dia 21 de abril, quando o governo anunciou medidas de relaxamento do isolamento agendadas para 4 de maio, a redução na mobilidade estava em 75%. Desde o dia 4 de maio a mobilidade vem aumentando, mas de forma controlada, sendo que para o último dado que temos, de 16 de maio, ainda apresentava redução de 44%. Neste período, ou seja, de quando o índice de contaminação cai abaixo de 10% (R<1) e o início do aumento da mobilidade, decorreram 33 dias e o número de casos diários caiu de 4.500 para 1.300 em 4 de maio. Desde então, a curva de casos diários segue decrescente, sendo que na última atualização, 26 de maio, foram 300 novos casos.

Aqui se observa um horizonte de tempo: a partir do momento que o isolamento se torna suficiente para trazer o índice de contaminação para menos de 10%, foram necessários 33 dias para iniciar a fase de retomada da mobilidade.

Como dito em nosso estudo anterior, com um menor número de casos diários é possível iniciar uma nova fase: testar, rastrear, isolar e controlar os poucos casos existentes.

É a fase que estamos visualizando na Itália e nos demais países europeus, conforme apresentaremos a seguir. Nos próximos dias será importante observar a efetividade destas ações de controle, sendo que outras e novas decisões de isolamento não estão descartadas em função do eventual crescimento no número de casos. O que temos de mais diferente e positivo neste caso é que as ações necessárias já são conhecidas e podem ser repetidas em regiões mais específicas.

Acompanhamento da Espanha

Em nosso estudo anterior não chegamos a fazer uma leitura em detalhes do caso da Espanha, mas, em menor proporção, a pandemia no país estava caminhando no mesmo rumo da Itália, com datas próximas de surgimento dos primeiros casos e em relação às medidas governamentais. No dia 10 de março de 2020 o governo impôs as primeiras restrições a viagens e, três dias depois, no dia 13, decretou estado de alarme e lockdown.

No dia 25 de março, houve prorrogação das medidas de lockdown, conforme verificamos no gráfico abaixo.

Gráfico Espanha

Apesar da proibição de atividades essenciais ter se dado no dia 13 de março, o isolamento com maior intensidade ocorreu a partir do dia 17. Analisando os índices de contaminação e mobilidade urbana, nota-se um comportamento bem parecido com o italiano: uma elevada queda nos índices de mobilidade e contaminação para então se atingir a redução de aproximadamente 80% na mobilidade (no dia 29 de março) e seu reflexo na queda do indicador de contaminação diário para abaixo dos 10% (no dia 6 de abril). Podemos perceber que, novamente, foi necessário ampliar o nível de isolamento social até que o índice de contaminação viesse para baixo de 10% e “quebrar” a curva de novos casos. O país aos poucos retoma suas atividades não-essenciais, como podemos observar na mobilidade aumentando a partir do dia 1 de maio. A liberação gradual tem sido semelhante à da Itália, com início em 4 de maio. No período de queda do indicador de contaminação para abaixo dos 10% e início desse aumento de mobilidade decorreram 25 dias e o número de casos diários inicialmente em 6.000 caiu para 1.700. Desde então, a curva de casos diários segue decrescente, sendo que no último dia que obtivemos dados, dia 25 de maio, foram 800 novos casos.

Aqui se tem mais um caso que também nos ajuda a dar o horizonte de tempo para o isolamento, ou seja, a partir do momento que ele se torna suficiente para trazer o índice de contaminação para menos de 10%, foram necessários 25 dias para se iniciar a fase de retomada da mobilidade.

Acompanhamento dos Estados Unidos

Na época em que publicamos nosso primeiro artigo, os Estados Unidos ainda não tinham se tornado o epicentro da pandemia do coronavírus. Porém, devido à sua relevância em número de casos e, por se tratar de uma país com uma extensão territorial maior do que os países europeus, decidimos que seria um bom estudo de caso.

No dia 21 de janeiro de 2020, os Estados Unidos reportaram seu primeiro caso da doença. Em 31 de janeiro, o governo americano proibiu a entrada de voos vindos da China e, no dia 13 de março, foram fechadas as fronteiras aéreas com o agravamento da doença. Devido à grande quantidade de estados no país e suas divergências com relação à evolução da doença, não há uma data precisa para o decreto do lockdown. Contudo, entre o dia 20 março e 01 de abril, a maioria dos estados já se situavam em quarentena, situação em que o país permanece até então, conforme verificamos na figura abaixo.

Gráfico EUA

Diferentemente da Itália e Espanha, os Estados Unidos não apresentaram índices tão elevados de redução da mobilidade urbana. No dia 10 de março, o índice de mobilidade encontrava-se em 8%. O pico de redução de mobilidade deu-se no dia 13 de abril, apresentando uma redução de aproximadamente 37%.

Aqui cabe destacar novamente que o índice de mobilidade não deve ser comparado entre os países. Por exemplo, no caso dos Estados Unidos, havia regiões mais infectadas onde o isolamento foi maior e outras menos infectadas, onde foi o isolamento foi menor. Importante observar que é feita a redução na mobilidade para se reduzir a taxa de infecção.

Para tornar esta questão mais clara, na ilha de Manhattan, no estado de Nova Iorque, verificamos índices pouco abaixo aos vistos na Itália e na Espanha. Se no dia 10 de março esse índice encontrava-se em 2%, no dia 24 de março a redução já era de 51% e, no pico, em 13 de abril, o índice apresentou uma redução de 70%, se mantendo até os últimos relatórios entre 65% e 70%.

Não diferente dos países europeus, entre os dias 10 de março e 13 de abril, o índice de contaminação manteve-se acima dos 10% (R>1). A partir do dia 14 de abril e, até os dias de hoje, notou-se um gradativo aumento na mobilidade, porém o índice de contaminação, manteve-se próximo aos 10%.

Ainda não foi decretado o fim da quarentena nos Estados Unidos, porém já vemos uma permanência no índice de contaminação próxima aos 10%. Ao longo desse período de queda do indicador para níveis próximos aos 10%, coincidente com o aumento do nível de isolamento social, decorreram-se 35 dias e o número de casos diários aumentou de 2.000 para 35.000. Desde então, a curva de casos diários segue caindo, perfazendo-se 19.000 casos no dia 26 de maio.

No caso norte americano, apresentando o índice recorrentemente próximo de 10% (e não consistentemente abaixo) ainda não é possível visualizar de forma clara quando se dará a liberação efetiva das medidas de isolamento. Isto porque um pequeno aumento no número de casos pode trazer a situação para fora de controle. Temos que observar.

Acompanhamento da Alemanha

Semelhante ao Estados Unidos, não publicamos nenhum estudo no nosso artigo anterior sobre a Alemanha, porém, com a evolução da doença na Europa, julgamos válido analisar o desenvolvimento da pandemia no país, já que se trata de uma referência mundial em termos de saúde e organização.

No dia 28 de fevereiro, o país adotou medidas de segurança em viagens intercidades com relação a higienização sanitária dos trens, estações centrais e ônibus. No dia 22 de março, a Alemanha decretou shutdown de atividades “não essenciais” e instruções gerais de higiene e assepsia para a população. No dia 20 de abril, o país já começou a retomada gradual do comércio e demais atividades que sofreram restrições. A seguir, iremos analisar os índices de contaminação e mobilidade do país.

Gráfico Alemanha

Similarmente aos Estados Unidos, a Alemanha não teve a proliferação do vírus de forma homogênea por todo o país, o que, agregado a outros aspectos culturais, implicou em diferentes níveis de redução de mobilidade entre as regiões. Todavia, assim como nos demais países analisados, foi necessário reduzir a mobilidade até que fosse atingido o patamar de 10% no índice de contaminação.

No dia 10 de março, a redução do índice de mobilidade estava em 2,5% e o índice de contaminação em 28%. Era a típica fase de crescimento exponencial sem controle. No dia do decreto do shutdown, em 22 de março, a redução da mobilidade encontrava-se em 14% e o índice de contaminação em 19%. O pico da redução do índice de mobilidade, em 30 de março, foi de 37%, com respectivo índice de contaminação em 11%. A partir de então vemos um aumento gradual do índice de mobilidade, sendo que desde 06 de abril, a Alemanha apresenta um índice de contaminação recorrente menor que 10% (R<1).

Diferente de Espanha e Itália, a Alemanha não teve o seu sistema de saúde saturado, as regras de isolamento foram mais flexíveis e o país implementou uma forte política de controle sanitário da pandemia. Logo após a queda do indicador de contaminação para níveis abaixo dos 10%, mais especificamente em 8 dias, observou-se um gradativo aumento na mobilidade com o número de casos diário caindo gradativamente do pico de quase 5 mil casos para 432 em 26 de maio.

Um ponto de atenção que gostaríamos de levantar é que, no dia 20 de maio, o indicador de contaminação superou pela primeira vez a faixa dos 10%. Então importante acompanharmos e lembrar novamente que novas reduções na mobilidade não são descartadas.

Acompanhamento do Brasil

A situação do Brasil

Conforme discutimos no primeiro artigo publicado, o Brasil implementou medidas de isolamento social na segunda quinzena de março, antes da velocidade de propagação da doença se acelerar, o que configurava um caminho otimista pela frente.

Gráfico Brasil

Trazendo o índice de mobilidade para esta discussão, podemos ver de forma mais clara como se deu o isolamento no Brasil. Percebe-se que no início dos decretos estaduais de quarentena, em 23 de março, a mobilidade já estava reduzida em 24% e o número de casos diários na casa dos 300. A redução da mobilidade então se intensificou, chegando ao patamar de 50% em 28 de março, e a taxa de contaminação caiu de forma significativa impedindo que o sistema de saúde fosse rapidamente saturado.

Caiu o índice de contaminação, porém não de forma suficiente para vir abaixo dos 10%, e antes que o R ficasse menor do que um, observou-se o aumento gradativo na mobilidade. O efeito disto foi que mesmo com o isolamento, o número de casos seguiu crescente.

Aparentemente nosso país apresenta alguns picos de elevação do indicador de contaminação diária nos primeiros dias da semana, possivelmente explicado por ineficácia na apuração dos testes positivos nos finais de semana.

Possivelmente, as instabilidades políticas, econômicas e sociais, não permitem que haja um consenso quanto a necessidade das políticas de isolamento social e, consequentemente, a população não consegue trazer a situação da pandemia para uma situação de controle.

Com o contínuo crescimento do número de casos ativos de Coronavírus no país, corre-se o risco de saturação do sistema de saúde, elevando a letalidade da doença no país, e, portanto, dificulta-se a discussão de um plano para redução no isolamento social. Foram praticamente 2 meses e, no último dia verificado, 26 de maio, foram reportados 11.450 casos, enquanto estavam em torno de 300 casos quando se iniciaram as políticas de isolamento. Para os últimos dados de mobilidade, obtidos em 6 de maio, a redução verificada era de 35%.

Não se percebe também uma discussão mais precisa de que o isolamento é uma fase necessária para se construir e atingir uma nova etapa, que envolveria o estancamento do crescimento da doença através de outras medidas, como testes e controle.

Então, antes de fazermos nossas considerações finais sobre o que visualizamos, em termos de prazo para redução no isolamento, vamos avaliar a situação de outros países com semelhanças sociais e econômicas com relação ao Brasil.

Países com similaridades econômicas

A Índia, o México e a África do Sul foram considerados países em etapas de desenvolvimento próximas ao nível do Brasil. São países que tem similaridades políticas, culturais, sociais, demográficas e econômicas e que podem ajudar a explicar a incapacidade na implementação de medidas restritivas de mobilidade no nível adequado para quebrar a curva de contaminação da doença. Dessa maneira, analisamos esses casos para verificar se o índice de mobilidade urbana desses países caiu o suficiente para manter o índice de contaminação abaixo de 10% ao dia.

Gráfico 09

Evidenciado pelo gráfico, podemos perceber que os patamares de redução de mobilidade na África do Sul, na Índia e no México, assim como no Brasil, até o momento, não foram suficientes para que o índice de contaminação ficasse consistentemente menor do que 10%. Em todos eles é possível verificar o crescente número de casos diários de Coronavírus. A conclusão é de que esses países possivelmente terão uma curva mais alongada da doença, com sobrecarga do sistema de saúde em breve e provavelmente maiores impactos econômicos.

Avaliamos também o caso da Rússia, porém optamos por não apresentar o seu número aqui, dado que não temos sua mobilidade diária disponível. A situação era semelhante: número de casos crescentes. Com a Rússia, exceto China, os países do bloco denominado BRICS mantinham suas similaridades quanto a não contenção do crescimento do Coronavírus.

Nos países que trouxeram a pandemia para uma situação de controle, principalmente nos países do mercado comum europeu, já existem discussões sobre a abertura da movimentação de pessoas entre suas fronteiras. Estas discussões têm caminhado no sentido de que a abertura se dê entre os países que tenham o mesmo nível sanitário relativo ao controle do Coronavírus. Assim, além das diferenças econômicas já existentes entre os diversos blocos mundiais, poderemos ter outras questões, como esta relativa a movimentação de pessoas, que acentuarão as diferenças entre os blocos.

Uma comparação dos níveis de testes entre os países

Para finalizar nosso estudo da atual situação do Coronavírus, elaboramos uma tabela comparando os países mencionados no artigo em termos de número de casos confirmados, número de óbitos e quantidade de testes, a cada 100 mil habitantes, a fim de ilustrar a perspectiva em curso.

Tabela 01

Antes, vale comentar que os países desenvolvidos aqui analisados (onde a pandemia já foi controlada) atingiram patamares superiores aos dos países em desenvolvimento em níveis de óbito ou casos por 100 mil habitantes. Devemos notar que estes países foram atingidos primeiramente pela pandemia e tiveram que elaborar soluções em um ambiente ainda não conhecido. Os países em desenvolvimento estão tendo a oportunidade de replicar as ações que já foram adotadas e, com isto, frear o crescimento exponencial da doença. Entretanto, somente isto não é suficiente. Faz-se necessário quebrar a curva de contaminação e se preparar para uma nova fase: testar, isolar e controlar, conforme apresentamos em nosso primeiro estudo.

Por sua vez, vamos analisar a situação da testagem entre os países. Em número de testes, enquanto nos países desenvolvidos o número por 100 mil habitantes se encontra no patamar dos milhares, nos países em desenvolvimento, o indicador se encontra na casa das centenas.

O índice de testes do Brasil em relação aos países desenvolvidos da amostra, a saber, Estados Unidos, Alemanha, Itália e Espanha, é bem inferior, uma vez que todos esses países possuem mais de 4.000 testes a cada 100 mil habitantes. Dado que esses países já estão em um cenário de retomada das atividades e relaxamento do isolamento social, é possível supor que ainda temos um longo caminho a percorrer se quisermos implementar uma etapa de testagem e controle no país.

Considerações Finais

As medidas de isolamento social começaram cedo no Brasil, de forma que houve uma certa expectativa (inclusive nossa no primeiro estudo) de que a situação se manteria sob controle. Porém, os números apresentados não mostram a diminuição da taxa de infecção para patamares abaixo de 10%, ainda que, exceto em algumas regiões especificas, não tivemos uma rápida saturação do sistema de saúde. Parece-nos então que possivelmente estamos caminhando para o pior cenário, onde o isolamento precisa ser mantido e, como o sistema de saúde não está saturado, não se tem a consciência da necessidade de implementação das medidas necessárias.

Em nossa perspectiva, nossos níveis de testes por 100 mil habitantes e nossa média de mobilidade urbana, insuficientes para quebrar a curva de crescimento de casos diários, não sustentam o argumento de nosso primeiro artigo, no qual acreditávamos que as medidas de isolamento começariam a ser reduzidas.

Ao se olhar o horizonte de tempo em que a curva foi quebrada nos países democráticos, que apresentam a situação sobre controle e o cenário que temos aqui no Brasil, podemos afirmar que ainda teremos que passar por um ciclo de pelo menos 14 dias na redução na mobilidade. Posterior a este ciclo e, considerando que neste período implementemos um forte programa de controle e testagem, poderemos visualizar um aumento controlado na mobilidade. Quanto mais tarde for iniciado este ciclo, mais longe ficará de visualizarmos o início da volta à normalidade.

Frente a proximidade do limite de ocupação nos leitos em grandes centros como na cidade de São Paulo e Rio de Janeiro, discute-se em tais municípios medidas mais fortes de redução na mobilidade. Este cenário nos permite inferir que o início de um aumento no isolamento não nos parece distante, porém não dispomos de variáveis precisas para afirmar quando ele virá. O que podemos afirmar é que, olhando para o lapso de tempo, entre o ponto em que o índice de contaminação vem abaixo de 10% e a liberação segura da mobilidade conforme ocorreu em Itália e Espanha, teremos um intervalo entre 25 e 33 dias.

Considerando então a necessidade de um ciclo de isolamento para quebrar a curva e mais o período em que os países analisados passaram para poderem iniciar uma fase segura de liberação, é possível pressupor que terminaremos maio e passaremos junho ainda com elevadas limitações de mobilidade.

Adicionalmente, todos os países mencionados acima que já estão na fase de controle sofrem um risco de uma segunda onda de contágio, o que implica na necessidade de continuarmos a observá-los.

Fica evidente que o Brasil fez a lição de casa precavendo eventuais colapsos no sistema de saúde, porém não mantivemos a disciplina de manter os níveis de isolamento social. Então, “a lição de casa não foi suficiente para ser aprovado no exame e repetimos de ano”. Em nossa avaliação teremos que repetir o ciclo de isolamento para então criar as condições seguras de redução expressiva no isolamento social.